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É muito comum a dificuldade com a matemática por se tratar, entre outros motivos, de conhecimento adquirido não de uma vez, mas por etapas que dependem umas das outras e durante anos seguidos. Isso requer disciplina, tempo e vontade de aprender em meio a um mundo tomado por atrações de curto prazo que sobrepujam o prazer diferido, futuro, das excelentes consequências do estudo. Somem-se a isso as dificuldades comuns de se aprender na escola.

Sobre isso vale a pena atentar para o que diz o pedagogo Jules Payot em seu livro “A educação da vontade”:

‘(…) nosso sistema de ensino tende a agravar essa preguiça intelectual fundamental.

‘(…) Nunca se deixa os conhecimentos adquiridos penetrarem profundamente.

‘A facilidade das comunicações (…) dissipam nosso pensamento. Não se tem tempo nem mesmo para ler. Vive-se uma vida tanto agitada quanto vazia. (…) a facilidade com que as informações atraem o interesse pelos diversos acontecimentos (…) fazem com que, para muitos, a leitura de um livro pareça tediosa”.

Quem lê estes trechos, sobretudo a parte da facilidade das comunicações e informações, não imagina que foram escritos há 126 anos, em 1894. São dificuldades seculares, não sendo, portanto, problemas exclusivos da atual geração de jovens em fase de aprendizagem. Mas se os atrativos que atrapalham o aprendizado aumentaram, a facilidade para aprender também.

Quando meu filho estava no quarto ano do ensino fundamental, em 2014, sua dificuldade em decorar tabuada estava causando prejuízo no aprendizado continuado dessa matéria. Com o intuito de ajudá-lo, comprei uma lousa, canetas de cores diversas e passamos a estudar todos os dias. A qualquer momento eu poderia perguntar uma conta qualquer de divisão ou multiplicação, e periodicamente o fazia escrever no papel, prática estimulada pelo saudoso professor Pierluigi Piazzi para fixar conhecimentos.

Com o passar dos anos o conteúdo de estudo ficou mais complexo. O ideal seria que meu filho fosse mais disciplinado nos estudos e adotasse estratégias com autonomia, mas isso não aconteceu como esperado. Apesar de um bom primeiro semestre em 2018, o segundo veio com relaxamento nos estudos e consequente baixa nas notas de matemática e geometria, o que levou a que ficasse de recuperação nessas duas matérias.

No início de dezembro foi triste ouvi-lo dizer, com lágrimas nos olhos e um desespero silencioso, que não estava entendendo nada do que estava estudando. É em situações como essa que me imagino como a última barreira entre meu filho e o estado de derrota, neste caso diante de assuntos considerados intransponíveis por ele. Eu sabia que o insucesso poderia ter consequências em sua auto-estima no ano letivo seguinte, motivo pelo qual eu deveria adotar ou intensificar certas atitudes e ações.

Uma delas foi lembrar que meu filho não é o gênio que eu gostaria que fosse. É muito bom em umas coisas e ruim em outras. Nessas outras eu como pai preciso ajudar no que puder, e não necessariamente por amor, mas também por obrigação, como faz o personagem de Denzel Washington no filme “Um limite entre nós”, Troy Maxson – além de destacar sua obrigação de pai, ele ensina seu filho a se esforçar para merecer e não depender de favores. Fazem parte dessa fase a responsabilidade, dificuldade e esforço no processo de aculturamento dos filhos, nas palavras do psicólogo Jordan Peterson no livro “12 regras para a vida – um antídoto para o caos”.

Uma de minhas atitudes para ajudar meu filho que mais me afetou, e ao mesmo tempo mais surtiu efeito positivo nele, foi suspender um curso noturno e diário que eu fazia na época, uma graduação, para ter tempo dedicado aos estudos com ele, com ênfase nos exercícios de matemática e geometria fornecidos pelos livros didáticos. Combatendo minha falta de paciência procurei transmitir palavras genuínas de incentivo. Separamos cadernos e folhas para exercícios e começávamos na hora do café da manhã, dando prosseguimento quando eu chegava do trabalho, momento em que nos debruçávamos sobre os exercícios antes mesmo de eu tomar banho ou trocar de roupa.

Um dia antes das provas de recuperação ele me disse para escolher qualquer questão dos livros. Escolhi, e ele resolveu! Fez as provas, disse que foi bem, e ficamos na expectativa pelo resultado até o início de janeiro de 2019. No momento de receber o boletim com as notas, num sábado, refiz na memória todo o processo, desde o início do ano. Construir algo que valha a pena é sempre mais difícil que destruir.

Sentados à mesa, a coordenadora virou o boletim para nós dois e mostrou as notas: de matemática, 10,0; de geometria, outro 10,0. Aquele foi um dos momentos mais emocionantes que já vivi com meu filho. Ele deu pulos e gritos de alegria. Nos dias de hoje quando ele passa por dificuldades maiores em alguma matéria lembro a ele daquele momento, que o esforço ajuda a conquistar seus objetivos.

Guilherme Santos Júnior
Guilherme Santos Júnior
Guilherme é Analista Ambiental, bacharel em Geografia e Ciências Náuticas, licenciado em Geografia e mestre em Planejamento do Desenvolvimento. Acredita na educação, mais que na instrução, como meio de se atingir objetivos importantes na vida, e no uso do livro como ferramenta de aprendizado e sobretudo de conhecimento.

11 Comentários

  1. Guilherme Filho diz:

    Muito bom o exemplo de perseverança e trabalho duro para conseguir um objetivo maior! Parabéns!

    • Guilherme Santos Júnior diz:

      Obrigado, Guilherme Filho. Trabalho duro e com perseverança devem ser sempre lembrados.

  2. Sarah silva diz:

    Louvo a Deus por sua Vida. Guilherme Júnior. Fico feliz em ver seu sucesso como profissional e como Pai. Homem íntegro, inteligente, simples e amante da União e paz familiar, e isso além de sua própria casa, com irmãos, primos, tios e amigos. DEUS continue abençoando VC. Sucesso em seus projetos. Sua tia Sarah Silva

    • Guilherme Santos Júnior diz:

      Obrigado, tia Sarah. A partir do suporte familiar temos maiores chances de sucesso na vida, inclusive na conquista profissional e de bons amigos.

  3. Deuselina Santos diz:

    Parabéns pelo artigo! Realmente a experiência no processo de educação de filhos é árdua mas vale a pena cada esforço empreendido. Quem dera que todos os pais estivessem, ou pudessem estar, mais presentes na vida dos filhos, teríamos um mundo melhor.

    • Ana Alice da Mata diz:

      Que lindo, fico muito emocionada com seu texto Guilherme, convivo diariamente com diversas situações, percebo que a ausência do acompanhamento familiar tem impactado nos péssimos resultados escolares, sabemos que são inúmeros fatores que podem interferirem no processo ensino aprendizado , porém eu enquanto Coordenadora Pedagógica da rede pública, tenho sentindo na pele a necessidade desse elo ( Família/ Escola)tenho trabalhado árduamente principalmente na este ponto. Quando há um empenho coletivo , os avanços são significativos . Parabéns pelo excelente artigo.

    • Guilherme Santos Júnior diz:

      Vale a pena sim. Sacrifício de pai se traduz em maior possibilidade de sucesso para os filhos. Obrigado pela participação, Deuselina.

  4. Ana Alice da Mata diz:

    Que lindo, fico muito emocionada com seu texto Guilherme, convivo diariamente com diversas situações, percebo que a ausência do acompanhamento familiar tem impactado nos péssimos resultados escolares, sabemos que são inúmeros fatores que podem interferirem no processo ensino aprendizado , porém eu enquanto Coordenadora Pedagógica da rede pública, tenho sentindo na pele a necessidade desse elo ( Família/ Escola)tenho trabalhado árduamente principalmente na este ponto. Quando há um empenho coletivo , os avanços são significativos . Parabéns pelo excelente artigo.

    • Guilherme Santos Júnior diz:

      Olá, Alice. Um amigo citou recentemente uma frase que pode ser relacionada ao texto e à sua experiência como Coordenadora Pedagógica: “Sonho que se sonha junto é realidade”. O elo impulsiona o sucesso do estudante. Obrigado pela participação.

  5. Claudia Moreira diz:

    Não poderia esperar outra coisa de você. Sempre colocando a educação em primeiro lugar. Ajudando a quem te procura. Lembro quando você resolveu abdicar das suas férias para ajudar ao Miguel e alguns amigos em um concurso interno da Marinha ( dando aulas de redação, isso em 1991). Viajou de Belém para Brasília, sem pedir nada em troca. Eles obtiveram êxito através de você. Agora você fez o mesmo pelo Efraim. Parabéns, querido irmão. Só tenho que agradecer a Deus pela pessoa maravilhosa que você é.

    • Guilherme Santos Júnior diz:

      É gratificante ver as pessoas se desenvolvendo em volta de nós, e uma honra poder participar do processo. Ao mesmo tempo, crescemos e recebemos, e levamos a experiência para a posteridade. Obrigado, minha irmã querida.

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